quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sessão Patchwork- Bonfim...

Durante essa semana participei de uma breve conversa com uma médica endocrinologista...Hormônios, medicações, reposições, humor, equilíbrio...Lendo a maravilhosa coluna do Marcelo Tas, "Bonfim"... Tive certeza que antes de qualquer decisão vale a reflexão...Por enquanto, vou continuar cutucando a minha serotonina com caminhadas e corridas...
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"O bicho homem consome os tranquilizantes há milênios. O primeiro “sossega-leão” da história ainda está em uso: o álcool. Provavelmente, a necessidade de “calmantes” surgiu logo depois de trocarmos a vida tranquila dos macacos pela de Homo sapiens. Aí está a coisa, colegas, nos achamos mais espertos do que somos na realidade.
Recentemente, o Brasil se tornou o maior consumidor mundial de clonazepam, um benzodiazepínico que altera funções do sistema nervoso. A marca comercial do remédio é tão conhecida quanto grife de moda: Rivotril. Já é o segundo medicamento mais consumido no país. Só perde para pílula anticoncepcional distribuída gratuitamente pelo governo através do Sistema Único de Saúde, o SUS.
Informação relevante: o clonazepam é tarja preta. Teoricamente, só pode ser comprado com receita médica. Se uma ínfima parte da população brasileira consulta psiquiatras, o diagnóstico é tão evidente quanto óbvio: o fenômeno do Brasil ocupar a liderança mundial no consumo da droga está ligado à prescrição do “santo remédio” por médicos não especialistas. Além, é claro, de uma multidão que se automedica e toma a droga goela abaixo de forma ilícita e descontrolada.
Quem sou eu para praguejar contra a farta munição de drogas e os avanços da medicina? A ciência desenvolve medicamentos para nos aliviar dores e sofrimentos e não há mal algum nisso. Só que uma particularidade na notícia reforça sua esquisitice:  a cidade com o maior consumo per capita de Rivotril no país é Bonfim, 70 mil habitantes, interior de Minas Gerais, um aparente oásis de tranquilidade, longe da maluquice das metrópoles. Lá, todo mundo se entope de clonazepam: idosos, adultos e crianças!
É como se houvesse duas cidades de Bonfim. A de fora, do sossego das ruas e montanhas de Minas. E a de dentro, da turbulência da mente das pessoas, amansada artificialmente pela química dos comprimidos. Não nego a necessidade de tratamento para doenças do corpo ou do espírito. Nós, adultos, somos livres para decidir como resolver nossos dramas e assumir as consequências da escolha. E as crianças?
A infância dos nossos dias tem sido submetida a diagnósticos dúbios, no mínimo, imprecisos. Há uma tendência clara de buscar um comportamento padrão, normatizado, muitas vezes, às custas de tratamentos com química pesada – com efeitos colaterais, dependências e cicatrizes na alma. O Brasil é vice-líder mundial, só atrás dos EUA, no consumo de Ritalina – uma anfetamina prescrita para crianças supostamente portadoras de algo chamado déficit de atenção e hiperatividade.
A pediatra Maria Aparecida Affonso Mysés, professora titular da Unicamp, tem uma posição clara e corajosa sobre o consumo exagerado da medicação no Brasil: “Há o risco de um genocídio no futuro”.
Bonfim, nome irônico para uma cidadezinha que virou símbolo de uma tendência trágica e que, felizmente, começa a ser questionada em fóruns científicos: a medicalização da vida. Se o seu filho se comporta fora da norma, questiona a necessidade de aplicar um “sossega-leão” antes de entender de verdade o que vai dentro ao redor dele."

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